Nos últimos dias tenho lido uma série de matérias sobre burnout na mídia nacional. A mais recente foi da Folha de São Paulo, apontando que o número de afastamentos devido à síndrome de burnout (esgotamento profissional) sextuplicou em quatro anos. Curiosamente, essas leituras me levaram de volta a um autor que não visitava há algum tempo: o visionário John Cage.
Para os não familiarizados, Cage nasceu em Los Angeles, em 1912. Foi escritor, filósofo e compositor. Esta última ocupação o levou a criar uma das obras mais icônicas do século XX: a peça 4’33”. Sua estreia ocorreu em 29 de agosto de 1952, no Maverick Concert Hall, em Woodstock, Nova York. O pianista David Tudor executou a performance: sentou-se ao piano, levantou a tampa do teclado para sinalizar o início do primeiro movimento e manteve-se em silêncio. Para marcar o começo de cada um dos três movimentos que totalizavam quatro minutos e trinta e três segundos, Tudor usou um cronômetro e virou as páginas da partitura.
Quatro minutos e trinta e três segundos de silêncio não parecem grande coisa, mas você já fez isso? Nos meus anos de prática clínica em musicoterapia, poucas coisas desafiam tanto os pacientes quanto permanecer em silêncio. Há quem o faça por ritual, por orientação médica e, em alguns casos, por recomendação jurídica. Fato é: ficar em silêncio pode ser mais difícil do que parece.
A dificuldade começa muito antes, inclusive na própria definição de silêncio. A mais comum é a ideia de que silêncio seria “ausência de som”, conceito que Cage contesta em Silêncio: conferências e escritos (1961). Para ele, a definição está equivocada, pois nunca é possível existir ausência total de sons. Essa reflexão surgiu após sua visita a uma câmara anecóica, ambiente que não reflete ondas sonoras e produz um “silêncio” absoluto e artificial. Ao entrar, Cage ouviu sons que vinham do próprio corpo. Mesmo em um local no qual o som não se propaga, é possível ouvir o “barulho” do sistema nervoso, da circulação sanguínea, entre outros. Assim, o cerne do silêncio deixa de ser ausência e se torna presença, ou melhor, uma pausa que revela presenças. Experimente ficar em silêncio por alguns minutos; muito provavelmente perceberá sonoridades antes despercebidas ou simplesmente notará o quão complexa é essa tarefa. E é aqui, creio eu, que chegamos à raiz da questão.
Distúrbios emocionais e, mais especificamente, suas variantes ocupacionais, como o burnout, tornaram-se pauta constante quando se discute saúde mental. Afinal, vivemos em uma sociedade de desempenho, como classificou Byung-Chul Han. Em uma era de superprodução, superdesempenho e supercomunicação, marcada por excesso de estímulos, informações e impulsos, o tédio se esvai e, com ele, o silêncio. O segredo para viver nessa era hiperestimulante talvez resida em buscar justamente o oposto.
Pense na sua música favorita ou na sua música do momento. Tente lembrar quais instrumentos estão presentes nela. Ótimo. Agora pense novamente, mas desta vez tente lembrar quantas pausas ela possui. Já havia notado? Músicas são feitas de sons organizados, mas também de pausas. Esse jogo entre som e silêncio é muito mais comum do que parece. Em 1992, David Foster explorou esse recurso de forma emblemática em I Will Always Love You, interpretada por Whitney Houston: a pausa que antecede o último refrão tornou-se tão marcante que gerou desafios nas redes sociais. Esse equilíbrio entre sons e pausas é um conceito que pode e deveria ser aplicado em nossas vidas. Pausas são essenciais. Assim como o tédio, mencionado por Han, quando não ocorre, acelera o caminho para uma nova barbárie, barbárie que começa pela dilaceração da saúde mental.
Meu conselho, portanto, dialoga com o início deste texto: silêncio é pausa para notar presenças. Não compreenda pausas como vazio, ausência ou incompetência. Na verdade, elas são o oposto. Em neurociência, as pausas são fundamentais para a manutenção de processos atencionais e cognitivos. Ao não pausarmos, levamos nosso sistema atencional à fadiga, tornando-o menos eficiente; já as pausas operam como mecanismo de reorganização funcional do cérebro, permitindo a redistribuição de recursos neurais e a restauração da capacidade de atenção. Descanso, intervalos e pausas são fundamentais para nossa saúde, e indispensáveis para quem almeja produtividade.
Por fim, trago uma frase que adaptei e tenho usado com pacientes e alunos: Nietzsche uma vez disse que, sem música, a vida é um erro. Não fazer pausas, portanto, é errar duas vezes.
Bibliografia:
OBINO, Flávio F°. Afastamentos por burnout disparam e gastos com auxílios pressionam Previdência. Folha de S. Paulo. 13 jan. 2026. (informações sobre crescimento de afastamentos por burnout e impacto nos auxílios-doença no Brasil).
CAGE, John. Silêncio: conferências e escritos. 1961.
HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
THIELE, A.; BELLGROVE, M. A. Neuromodulation of attention. Neuron, v. 97, n. 4, p. 769-785, 2018. DOI: 10.1016/j.neuron.2018.01.008.
NIETZSCHE, Friedrich. Crepúsculo dos ídolos (conteúdo adaptado neste ensaio).

