Música e sono: a ciência por trás da canção de ninar 

Neste capítulo iremos expandir ainda mais os âmbitos que estão envolvidos neste tema tão fascinante que é o sono. Para tanto, que tal falarmos de música?

Provavelmente você já sabe, ou supõe, que música é muito mais que um mero entretenimento, caso não, irei te convencer disso. Aquela música que te deixa alegre e consequentemente leva você exatamente para o momento em que ouviu ela pela primeira vez, ou então, aquela música que mesmo não sendo sua favorita não te deixa ficar parado, são (em suma) alguns exemplos que mostram o potencial da música enquanto estímulo. Para que se tenha uma dimensão deste potencial a música, assim como a linguagem, tem sido parte essencial de toda cultura humana conhecida, sendo, portanto, um grande canal de acesso a nós e nossos cérebros (1). 

A música enquanto estímulo, desperta interesse a muitos séculos, Aristóteles (384 – 322 a.C.) já falava sobre a relação entre sonoridades e humores, no antigo Oriente médio e durante o império Otomano existiam hospitais que utilizavam a música como uma das formas de cuidados na saúde, provavelmente influenciados pelos escritos gregos e posteriormente pelo filósofo Alfarábi (870 – 950 a.C), a música era mais uma ferramenta para auxiliar nos tratamentos. Já no ocidente os estudos começaram através de observação dos benefícios da música em situações diversas. Everett Thayer Gaston, considerado pai da musicoterapia, era músico e psicólogo e se dedicou a estudar os efeitos que a música poderia ter sobre o indivíduo (2,3,4,5,6). A partir do interesse da ciência por esses assuntos a utilização de música e sonoridades como ferramenta para promover saúde ganhou força, dando início ao processo de criação da musicoterapia. 

Mas, mesmo com os achados em relação aos benefícios da música na promoção de saúde, que por sinal, a ideia de uma musicoterapia propriamente dita afirmou-se no final dos anos 40, sobretudo, em resposta ao grande número de soldados que regressavam dos campos de batalha da Segunda Guerra Mundial com ferimentos na cabeça e lesões cerebrais traumáticas (7). No Brasil, a musicoterapia começou a firmar-se a partir dos anos 50 no Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul (8) com a formação de musicoterapeutas e a inclusão deste profissional em vários setores de órgãos públicos e privados de saúde. Deste ponto em diante a musicoterapia passou por âmbitos da educação especial, hipnose, psicanálise, neurociência, mas ainda traz em si perguntas que percorreram o tempo desde a época dos babilônios. Afinal, o que faz a música ser tão especial a ponto de estar aqui neste livro?

Para que possamos entender melhor a importância da música como objeto de estudo, sugiro que nossa análise seja sobre as lentes da neurociência. Ao ouvir música, muitas áreas cerebrais são ativadas simultaneamente, áreas que muitas vezes são de regiões distintas. Para exemplificar, imagine uma árvore de natal com aquelas luzes (popularmente chamadas de “pisca-pisca”) em volta dela, e você possui um controle que irá comandar as luzes que estão envoltas na árvore. Inicialmente você aperta o primeiro botão, e esse botão por sua vez faz com que uma parte específica da árvore se acenda. Logo depois, você aperta um segundo botão, neste caso a parte que acendeu anteriormente acende novamente, porém, desta vez mais partes da árvore começam ser iluminadas, partes tanto próximas da estrela que fica no topo, como também partes que estão localizadas mais inferiormente, próximas ao tronco da árvore. O primeiro botão pode ser por exemplo um estímulo verbal, já o segundo é uma música. É isso que muitas vezes ocorre no nosso cérebro, enquanto ouvimos música. Áreas relacionadas ao sistema auditivo são ativadas, porém, não somente processos auditivos ocorrem durante a escuta musical, além do lobo temporal, regiões como o córtex-motor, cerebelo, hipocampo, amígdala, córtex pré-frontal e outras áreas que participam do ato denominado processamento musical (1,9,10) ilustrado na figura 1 . Consequentemente, temos ao ouvir ou fazer música, respostas motoras, emocionais e cognitivas acontecendo no nosso sistema nervoso, e quando o estímulo é direcionado por um profissional qualificado essas respostas podem promover diversos benefícios, como por exemplo na sua saúde e bem-estar. Dentre esses benefícios, destaca-se a melhora da qualidade do sono, que ganhará protagonismo neste capítulo. 

Durante a exposição a música, alterações fisiológicas também ocorrem no nosso corpo, modulações na frequência cardíaca, ritmos respiratórios, ritmos elétricos cerebrais e também do ciclo circadiano de sono-vigília (11,12). Provavelmente vocês já se sentiram calmos e relaxados ao ouvir alguma música, isso de fato ocorre com muitas pessoas e é corriqueiro o uso de músicas como um mecanismo auto-regulatório em situações estressantes ou como alternativa para reduzir o estado de alerta em algum momento em que este é necessário, como a hora de dormir. Estratégias  para redução no nível de atividade cerebral são muito convencionais para auxiliar na qualidade do sono, muitas vezes são utilizados procedimentos farmacológicos para tal, mas também existem procedimentos não farmacológicos, como alterações na rotina, alimentação e a utilização de música. 

No caso, a música tem se mostrado muito eficaz para tratamento não farmacológico em diversas situações, como redução de ansiedade, procedimentos cirúrgicos, dor (12) e melhora na qualidade do sono (13). Para explicar o porquê de a música estar sendo tão utilizada nesses casos e os resultados serem tão promissores voltemos à neurociência. O cortisol, que é um hormônio glicocorticóide, protagonista das reações metabólicas desencadeadas pelo eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA), tem íntima relação com o estresse, sendo secretado em grandes quantidades durante situações estressoras (14). Alguns estudos já mostram que ao ouvir determinados tipos de música, com certos tipos de características em sua composição reduzem os níveis de ativação do eixo HPA e diminuição no nível de cortisol, promovendo redução nos níveis de estresse e maior sensação de relaxamento nos indivíduos que passaram pela experiência (15). Consequentemente isso afeta diretamente na qualidade do sono, afinal, estar relaxado é de suma importância para um sono de qualidade. 

Em alguns casos a falta de sono está associada a pensamentos ruminantes, que impedem o indivíduo de dormir ou dormir de forma mais saudável. Nesses casos a música tem se mostrado eficaz (16). Em pessoas que passaram por traumas o silêncio pode ser um grande vilão, gerando elevação no nível de estresse e ansiedade. Um estudo que teve como alvo mulheres vítimas de abuso (17), utilizou a música como um ponto focal de atenção reduzindo níveis de ansiedade e estresse. A música também mostrou-se eficaz durante a soneca, um estudo mostrou que ao ouvir música relaxante antes de uma soneca a qualidade da mesma aumenta (18) como mostrado na figura 2.  

Um outro ponto que deve ser destacado já que chegamos até aqui é que existem características nas músicas que podem colaborar para esses resultados. Muitos me perguntam “Ettore, qual música relaxa?” eu sempre respondo da seguinte maneira “aquela que te faz relaxar”, parece pleonasmo da minha parte, mas eu explico. Algumas das características das músicas que proporcionam relaxamento tem, às vezes, características em comum. O andamento, por exemplo, é uma característica da música muito importante neste quesito, entrainment rhythmic (ER) é um termo derivado inglês que se refere a uma espécie de “sincronização/arrastamento rítmico”, o ER é a sincronização da baixa frequência neural ou cardíaca com a estrutura rítmica ou o tempo de um estímulo auditivo, como a música por exemplo (16). O ER tem sido estudado para aplicação durante algumas fases do sono, porém, o que quero explicar aqui é que o andamento de uma música (se ela é rápida ou mais lenta), muito provavelmente dirá se ela causará efeitos relaxantes, mas, não é tão simples assim. Variações específicas na melodia e timbre podem muitas vezes dar à peça musical características que a faz ter maior probabilidade de ser relaxante. Entretanto, existe uma grande variante  denominada cultura, afinal, nem todos nós ouvimos as mesmas músicas, consequentemente uma música que para você é relaxante, para o seu colega de trabalho não é, e isso ocorre muitas vezes por seu colega não gostar do gênero, ou ter alguma memória negativa associada a este gênero ou peça musical. Portanto, é importante analisar dentro do seu repertório e características socioculturais, as músicas que causam em você a sensação de relaxamento e bem-estar e a partir delas analisar quais músicas podem ser interessantes para iniciar um processo de tratamento utilizando música e sonoridades. 

Então, sim, a música pode auxiliar você a ter um sono de qualidade. Todos os aspectos elucidados aqui trazem luz a premissa de que a música é um estímulo muito potente, ativando várias áreas cerebrais, inundando neuroquimicamente o cérebro provocando várias respostas emocionais e sendo também uma ferramenta de auto-regulação 

Tendo esses fatores em vista, ressalto mais uma vez que, a importância da música em nossas vidas é para além do entretenimento. Os potenciais da música vem sendo estudados, e mais avanços do uso da música como agente de saúde e bem-estar estão surgindo, possibilitando um tratamento para diversas patologias através de um método não farmacológico e com quase nenhum (ou nenhum) efeito colateral (15). E por ter essa característica de agente de saúde, a orientação de um profissional da saúde, o musicoterapeuta, é de suma importância para que todo o processo de intervenção musical seja o mais eficaz e prazeroso possível.

Desta forma, creio ter deixado bem evidente sob as lentes da neurociência o tão comentado “poder da música”, que a milênios desperta curiosidade de vários dos maiores pensadores como Nietzsche, Aristóteles, o poeta Victor Hugo, Theodor Adorno, Albert Einstein e outros muitos pensadores. O porquê disso, explica-se não por ser música algo do divino ou do desconhecido, muito pelo contrário, a resposta pode estar, por exemplo, quando você olhar para o espelho do seu banheiro ou seja em você, pois na realidade, a música está em nós e nós somos música.  

Referências:

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  1. Cordi, M. J.; Ackermann, S.; Rasch, B. Efeitos da música relaxante no sono saudável. Scientific Reports, 9, 9079 (2019). https://doi.org/10.1038/s41598-019-45608-y
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